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Como tudo começou...

  • Foto do escritor: Märia Clara Nery
    Märia Clara Nery
  • há 10 horas
  • 3 min de leitura

Como tudo começou...



Minha infância foi desenhada entre o cheiro do feijão cozinhando e um silêncio pesado que as paredes da casa pareciam absorver. A mesa era o nosso palco principal: ali o riso se misturava à angústia e, entre pratos fumegantes, eu tentava decifrar o que acontecia entre meus pais. Eu via o esforço da minha mãe em manter a calma e a sombra do sorriso do meu pai, sentindo que algo estava prestes a quebrar. Naquela época, eu achava que o amor era justamente isso: esse arranjo desafinado entre o carinho e a frustração.


Quando a separação veio, trouxe junto um terremoto de culpa. Durante muito tempo, acreditei que se eu fosse uma criança mais gentil, o destino da nossa família seria outro. As noites ficaram opressivas e eu me sentia uma estranha na escola, observando meus amigos falarem de férias perfeitas enquanto eu carregava um vazio no peito. A ideia de que o amor era uma rocha inabalável tinha se desfeito, e eu me perguntava se tudo o que eu tinha vivido não passava de uma construção feita de promessas frágeis.


Em meio ao caos, minha mãe se tornou meu refúgio, mesmo que o tempo dela fosse curto. Ela trabalhava incansavelmente para sustentar a todos nós, e nossos momentos juntas eram escassos, mas ela fazia de tudo para que fossem especiais. Naquela rotina exaustiva de quem carrega o mundo nas costas, ela tentava ser nossa fortaleza, transformando pequenas pausas no jantar ou conversas antes de dormir em rituais de cura que me faziam sentir, por um instante, protegida.


Mas o cenário mudou com a chegada do meu padrasto, trazendo uma tempestade que eu nunca sabia como enfrentar. Ele era um homem de extremos, movido pelo álcool. Em um momento, era o comediante da casa, fazendo todos rirem; no passo seguinte, tornava-se uma pessoa densa e extremamente punitiva. Essa oscilação era exaustiva. Eu nunca sabia qual versão dele cruzaria a porta, e essa incerteza transformou nossa convivência em um campo minado emocional.


Embora ele nunca tenha encostado um dedo em ninguém, a violência se manifestava de outras formas. O barulho das coisas quebrando em casa ecoava muito além do som dos objetos estilhaçados; era a paz que se quebrava junto. O abuso morava nas palavras e no controle emocional. “Você não é uma criança especial”, ele dizia, e aquelas frases agiam como açoites, ferindo uma autoestima que já estava em carne viva e me fazendo sentir sempre insuficiente.


Para sobreviver a essa montanha-russa, criei táticas de resistência invisíveis. Meu quarto virou minha fortaleza; um canto com livros e desenhos onde eu podia mergulhar em mundos onde as coisas, finalmente, tinham um sentido lógico. Na escrita, encontrei a voz que me era roubada nos dias de fúria e garrafas vazias. Cada rascunho era um passo em direção ao meu próprio poder, uma forma de gritar que eu existia, mesmo quando tentavam me transformar em uma sombra silenciosa.


Essa convivência distorceu meu conceito de afeto. Crescer sob a instabilidade de um alcoólatra me fez acreditar que o amor era algo condicional e imprevisível, que poderia mudar de cor dependendo do humor de outra pessoa. A identidade se tornou um campo minado; eu sentia que precisava ser perfeita para merecer qualquer migalha de aprovação, e essa busca constante por validação se transformou em um ciclo de solidão e medo de errar.


Hoje, entendo que aquelas cicatrizes moldaram meu olhar, mas não definem meu destino. O amor deixou de ser aquela figura instável e barulhenta para se tornar algo construído na calma e na presença. Aprendi a valorizar o esforço da minha mãe e a entender que a fragilidade dos outros não era minha responsabilidade. Se antes eu buscava certezas absolutas para me sentir segura, agora valorizo a beleza do que é honesto e, acima de tudo, estável.


A jornada de cura é longa e os fantasmas daquelas discussões e do som de vidros quebrados às vezes ainda visitam minha memória. No entanto, me vejo como um mosaico de histórias e conquistas silenciosas. Transformar aquela angústia em potência é meu ato de coragem diário. Reconstruí minha própria narrativa e percebi que, mesmo tendo crescido em uma casa onde as coisas se partiam, eu aprendi a me colar e a caminhar em direção à minha própria luz.


 
 
 

1 comentário


Carla
há 6 horas

Maravilhosa! Que vc tenha sucesso em todas as duas empreitadas ♥️

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