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A ilusão do autocontrole...

  • há 9 horas
  • 3 min de leitura

A ilusão do autocontrole...



Às vezes, eu me pego sustentando uma imagem de plenitude que não passa de uma construção cuidadosa. É a tal ilusão do autocontrole: por fora, a postura é firme e o olhar é sereno, mas por dentro existe um turbilhão que ninguém vê. Aprendi a ser o meu próprio porto seguro à força, acreditando que, se eu demonstrasse qualquer rachadura, o mundo ao meu redor desmoronaria. Mas manter essa armadura cansa, e o preço de parecer sempre bem é o silenciamento do que é real.


Esse medo do julgamento é uma sombra que ainda dita muito do que eu faço. Já perdi as contas de quantas vezes deixei de postar um pensamento, uma foto ou de mostrar quem eu realmente sou por receio da interpretação alheia. Ter um estilo próprio e uma voz autêntica parece um desafio quando a pressão psicológica por encaixe fala mais alto do que o meu desejo de ser livre.


Essa necessidade de parecer perfeita tem raízes profundas: passei anos tentando ser invisível por causa da obesidade e do bullying. Quando você é alvo de preconceito, a mente cria um mecanismo de defesa curioso: já que não posso mais me esconder, que eu seja impecável. É uma compensação irracional para evitar novos ataques.


Hoje, mesmo tendo melhorado muito, ainda me pego me podando. Já não vejo isso como um fardo pesado, mas entendo que é um costume do passado, uma resposta automática impregnada na pele. Se eu não estiver atenta, esse hábito de me esconder atrás da perfeição volta com força. É uma vigília constante para não deixar que a "eu" do passado tome o controle do presente, especialmente em um mundo que parece ter perdido a noção de processo.


Vivemos em um cabo de guerra geracional (Gen Z, Millennials, Gen X...) mas, no fim do dia, o vilão é o mesmo: o imediatismo. A cultura dos vídeos de 15 segundos viciou nosso cérebro em recompensas rápidas e criou uma geração com a atenção de uma libélula. Vemos uma realidade editada na internet que vende a ilusão de que o sucesso é um aplicativo que você apenas baixa e instala. Essa falsa percepção de que não é preciso trabalhar duro ou respeitar o tempo das coisas gera uma ansiedade coletiva. Todos acham que estão atrasados, ignorando que, para subir uma escada, é preciso pisar em cada degrau.


Sinto isso na pele e até me divirto — para não chorar — explicando as coisas para a minha mãe. Ela me manda demandas de edição e espera que um vídeo profissional fique pronto em 10 minutos porque, na cabeça dela, "é só um videozinho". Ela vê o resultado final de segundos e não imagina as horas de decupagem e técnica que existem por trás. Essa ilusão do "é rapidinho" acaba gerando percalços em todos os tipos de relacionamento, do profissional ao familiar.


No meu salão, essa busca por ordem bateu de frente com essa urgência cega. Ao contratar uma manicure, recebi uma mensagem desaforada de uma candidata porque marquei o teste para a semana seguinte. Ela ignorou o protocolo de uma profissão que mexe com saúde e a correria de um feriado como o Dia da Mulher. A resposta dela "deve estar precisando mesmo" revelou a pressa de quem quer "chegar lá" sem entender o caminho. Ela fechou uma porta antes mesmo de entrar, sem compreender que a pressa é inimiga da excelência que eu luto tanto para manter.


O episódio é o reflexo exato do que vivemos: quando o senso de urgência não é equilibrado, ele nos afasta do objetivo final. A pressa pode dar uma sensação de movimento, mas é um movimento vazio que não sustenta nada a longo prazo. Alcançar um objetivo real exige a coragem de ser "lento" em um mundo que corre sem direção. Entendi que meu valor não está na velocidade da entrega, mas na verdade que coloco em cada etapa.


A vida, afinal, é feita de ciclos e degraus. Se eu aprendi a respeitar os degraus da minha própria cura e do meu corpo, também preciso exigir que o meu trabalho respeite o tempo da qualidade. Não dá para pular etapas sem comprometer a estrutura do que estamos construindo. Respeitar o próprio tempo e o tempo dos processos é, talvez, o maior ato de rebeldia e sanidade que podemos ter hoje em dia. Somente a constância nos leva ao lugar que realmente importa.

 
 
 

1 comentário


Carla
há 6 horas

Meu sentimento é exatamente esse! Uma angústia sem fim... Mas a gente reconhecer tudo isso nos faz caminhar adiante ✨

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